Quatro patas bom, duas patas ruim

15.11.16


Algumas coisas não mudam. Eu me lembro da minha versão de 16 anos lendo 1984 e ficando com aquele olhar perdido ao chegar na última página, sentindo aquela sensação de impotência apertando o coração, sem saber direito para onde ir. Seis anos depois, ler A Revolução dos Bichos trouxe de volta essa sensação. Talvez com menos intensidade, mas com a mesma carga de significado. Porque poucos autores conseguem abordar as mazelas da sociedade de forma tão profunda, angustiante e emblemática do que o mestre George Orwell


Em A Revolução dos Bichos (Animal Farm, no original), os animais da Granja do Solar resolvem se voltar contra os anos de exploração impostos pelos seres humanos após ouvirem as ideias de revolução do velho Major, o porco mais conceituado da fazenda. Após a morte do Major, a Revolução finalmente acontece e os bichos conquistam a sua independência só para, aos poucos, verem os ideais de igualdade da velha insurreição serem suprimidos por falsas promessas e articulações tirânicas por parte dos animais mais inteligentes da granja: os porcos.

O livro usa a fábula para compor uma sátira político-histórica, uma crítica feroz ao opressor regime soviético de Stalin - representado pelo porco Napoleão. Foi escrito durante a Segunda Guerra Mundial, quando a luta do comunismo contra o nazi-fascismo ainda era muito forte, mas George Orwell não poderia deixar de expressar com genialidade a hipocrisia de um regime no qual ele antes acreditava mas que viu sendo deturpado pela ganância por poder de alguns homens.   

Assim, cada acontecimento simbólico da narrativa tem uma origem real e concreta; cada animal representa uma classe social e cada evento narrado encontra um representante político. Então é legal ler A Revolução dos Bichos com um embasamento histórico ou procurar pelas referências após a leitura. Mas mesmo que o leitor não faça isso, a história "fictícia" por si só da insurreição dos animais já é o suficiente para tecer uma linha tênue entre os comportamentos de animais humanizados e homens animalizados. 


O que me surpreende, porém, é a importância que a literatura dá ao fato do livro ser uma crítica direta ao socialismo, como se ignorasse os vestígios atemporais da obra. A Revolução dos Bichos não deixa de ser um retrato fiel do que acontece nos sistemas de manipulação que se erguem graças a uma série de técnicas que podam a capacidade de pensamento das massas. E isso ainda existe até hoje, seja qual for o sistema que você vive - ou acredita. 

Apesar de não ser tão o foco do livro, a exploração dos animais é outro tema que não pode ser esquecido durante a leitura, especialmente hoje quando nossas fazendas se tornaram grandes sistemas de produção, mecânicos e cruéis, um verdadeiro massacre para os animais, o ambiente e até para gente. 

Então, eu mais do que recomendo A Revolução dos Bichos (até porque provavelmente eu vou recomendar qualquer coisa que o George Orwell escreveu). O livro é impecável tanto em termos de construção narrativa quanto como sátira político-histórica, mas o mais importante é que, como leitor, você não prenda essa leitura a apenas um olhar curioso sobre o passado, e sim mantenha um olhar reflexivo do presente também.

Nota sobre a edição: Essa edição que eu li é de 1982 e pertence a uma biblioteca pública. A última vez que alguém pegou emprestado tem quase dois anos e, sei lá, isso é meio triste.

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