Flores da Ruína e a ficção autobiográfica de Modiano

9.5.15



Flores da Ruína - Patrick Modiano
Fleurs de Rune  |  Record, 2015  |  144 páginas
Em 24 de abril de 1933, dois jovens cônjuges se suicidam em seu apartamento em Paris. Naquela noite, eles teriam se encontrado com diversas pessoas e foram dançar. Trinta anos depois, o narrador tenta reconstruir a história deles, que parece se cruzar com a sua própria. Cada pergunta suscita outras, como um eco, ao curso de andanças fantasmagóricas por Paris, de lembranças que retornam à memória...

Se você acompanha as principais notícias do mundo da Literatura provavelmente já ouviu falar no nome Patrick Modiano. Por ter como temática/cenário principal o período da ocupação nazista alemã em suas obras (Vila Triste, No Café da Juventude Perdida, Ronda da Noite, Dora Bruder etc), o romancista francês de 69 anos voltou aos holofotes de todo o mundo ao receber em 2014 a maior honraria para a carreira e a vida de um escritor: o prêmio Nobel de Literatura.

E como todo autor, Patrick Modiano também tem as suas próprias características narrativas. Uma delas é a mescla da ficção com o elemento autobiográfico; característica que está fortemente presente na sua chamada "trilogia essencial". Flores da Ruína faz parte desta trilogia, junto com Remissão de Pena e Primavera de Cão, mas os três livros traçam histórias independentes que partem da ficção para criar uma narrativa bastante descritiva em relação ao passado e às lembranças do Modiano.

Em Flores da Ruína, por exemplo, o misterioso suicídio de um casal é o ponto de partida para o narrador da obra (que por uma questão de datas, relações familiares e lugares citados se torna o próprio Patrick Modiano) abrir um tortuoso e por vezes confuso labirinto em suas lembranças de infância e juventude. O leitor é logo arrebatado pelo suspense que envolve o suicídio que aconteceu anos atrás e que o narrador sem nome está disposto a desenterrar e resolver. Só que nessa empreitada pela Paris de seu passado, ele deixa as suas próprias lembranças tomarem conta da história.

Assim, após os primeiros capítulos, o livrinho pequeno de capítulos curtos e letras grandes torna-se uma mescla de realidade e ficção, e a busca por respostas para o caso arquivado dá lugar à nostalgia. O misterioso casal falecido do início desvanece em meio a uma descrição tanto poética quanto confusa de uma vida e de uma Paris que o autor procura reconstruir em suas memórias e, assim, Flores da Ruína se torna um quebra-cabeça embaralhado demais para se remontar, mas que apresenta a sua própria beleza e singularidade em toda a sua bagunça e complexidade.

Não foi uma leitura fácil para mim, principalmente pela grande quantidade de nomes em francês de lugares que eu não conheço mais as mudanças em relação ao que era ficção e/ou lembranças do passado e fatos do presente. Mas foi uma leitura diferente e rápida. Aos que se interessarem, não esperem um sentido claro, forte e definido da parte ficcional, pois na obra de Modiano serão as suas memórias isoladas que vão falar por si próprias. 

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14 Bilhetes

  1. Oi, Tici!
    Nossa, gostei muito da ideia do livro e o modo que o escritor a aborda parece ser bem interessante. Sinto uma maior dificuldade em leituras assim, um pouco mais complexas, mas acho que darei uma oportunidade a esse.

    Beijão,
    surmelody.blogspot.com.br

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    1. Oba, Denise! <3 Eu tive, sim, bastante dificuldade com "Flores da Ruína", mas nem foi pela narrativa ser difícil, não, foi mais porque nesse livro ficção/realidade se misturou muito. O bom é que uma hora a gente se acostuma e não sente mais dificuldade com certos tipos de leitura! *-* xx

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  2. Olá, Tici.
    Nunca li nada do autor, mas tenho muita vontade, principalmente pela qualidade da narrativa. Tenho certeza que será uma obra que me ganhará sem qualquer dificuldade.
    Excelente dica.

    Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista de maio. Você escolhe o livro que quer ganhar!

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    1. Obrigada e tomara! Agora também tenho vontade de ler as outras obras dele, ainda mais as que fazem alguma ligação direta com a ocupação nazista! xx

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  3. Apesar de ter gostado bastante da sinopse e achado muito interessante a ideia do livro, acho que não vou ler. Acho que não vou me dar bem com essa leitura principalmente pelos motivos que você citou que teve dificuldade com ele.

    Blog Prefácio

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  4. Oi TiciLinda!
    Vou ser sincera, antes entendia francês como se fosse a minha primeira língua, mas deixei de ir treinando e agora é como se nunca tivesse aprendido, por isso, ia ter que ler o livro com um dicionário (ou meu pai) do meu lado ahaha! Achei a sua resenha incrível, como sempre! <3

    http://prologuesepilogues.blogspot.com/

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    1. Oii, Míriam! Eu quero tanto aprender francês um dia! *O* Mas assim, as expressões na língua francesa são mais relacionadas a lugares, boulevares e tals, não atrapalha no sentido na frase, só contribui para uma descrição extremamente detalhista :) Obrigada! xx

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  5. Vou confessar aqui que nunca tinha ouvido falar desse autor, mesmo ele tendo ganhado o Nobel *shame on me* E, apesar, te ter sido uma leitura difícil pra você eu meio que fiquei empolgada pra ler. Acho que preciso de livros assim: desafiadores, diferentes e com essa mescla autobiográfica. Vou ficar de olho por ai pra ver se acho ele valeu pela dica, sis <3
    Beijos!
    Debora.
    http://vanille-vie.blogspot.com.br/

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  6. Saudações Lady Tici,
    Por diversas vezes me deparei com o nome do autor e suas obras, mas nunca cheguei a cogitar a leitura de nenhuma delas. O seu relato, e a capa do livro me lembraram Carlos Ruiz Zafón. Eu me arriscaria na leitura, por imaginar que o livro é bom, apesar de todas as suas dificuldades.

    Venha visitar o Castelo
    Att
    Ana P. Maia ♛
    The Queens Castle

    Ps.: Digno parceiro, peço gentilmente que confira vosso e-mail a fim de revalidar nossa parceria.

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    1. Zafón! <3 Você gostando do divo Zafón seria melhor começar pelas obras mais famosas do Modiano! *-* E respondi o e-mail já! xx

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  7. Tici Filhote, eu nunca tinha ouvido falar nele (imitando a Debs aí em cima: *shame on me*). Achei a história bem interessante, vou colocar na minha listinha. E fiquei curiosa para saber mais sobre o autor depois que você disse: "Por ter como temática/cenário principal o período da ocupação nazista alemã em suas obras...". Eu adoro histórias com essa temática (sad, but true).

    Beijos,
    www.girlfromoz.com.br

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  8. Oi Tici!
    Esses nomes todos de ruas e prédios de Paris também me incomodaram um pouco quando li Flores da Ruína e Uma Rua de Roma também (parece ser mais uma das características do Modiano).
    Me encantei com o texto do autor e essa narrativa poética e nostálgica que ele propõe, mas senti que ficou faltando alguma coisa para que eu me envolvesse mesmo com o livro. De qualquer forma, concordo com você: é, sem dúvida, uma leitura diferente
    Beijos,
    alemdacontracapa.blogspot.com

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    1. Hey, Mariana! Fica a sensação que a obra está incompleta, né? Mas no fim acho que o que ele queria passar era justamente isso, de alguém que se perdeu em si mesmo e nas suas memórias enquanto procurava solucionar um mistério antigo. É bem diferente mesmo! xx

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  9. "Modiano é autor para adulto, ou no minimo um leitor maduro.", foi o que pensei quando concluir sua resenha. Quando você disse "não esperem sentido claro, forte ou definido na parte ficcional" pensei: ele não mastiga o texto para o leitor, deixa conosco o duro trabalho das conclusões.

    Sim, já ouvir falar de Modiano aqui e ali e depois da resenha me ocorreu que é um autor que preciso ler, preciso coloca-lo no carrinho.

    Pandora
    O que tem na nossa estante

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