As Caixas

22.9.14


Se alguém estivesse embaixo da cama teria tomado um bom susto quando a garota de olhos grandes e azuis colocou a cabeça no espaço entre a cama e o chão. Algumas lágrimas ainda balançavam em seus cílios longos e loiros e só havia um jeito de espantar a tristeza de uma vez por todas: atirar todos os sentimentos ruins no fundo de uma caixa.

Ela tinha cinco caixas no total, dividindo tudo o que a pertencia de acordo com categorias bem definidas: Esperança, Pessoas Especiais, Sorvetes, Lembranças e Mar. A fileira de caixas de sapatos decoradas com recortes de jornais e revistas era seu maior orgulho e sua felicidade, até nos momentos difíceis. E, num momento como o que ela estava vivendo, só havia um jeito de se sentir melhor: fazer um tour por todas as caixas.

Ela arrastou as cinco para perto de si e sentou-se ao lado observando o papel que recobria cada uma. Lembranças era toda branca e com pequenas frases em caneta preta flutuando na superfície; Sorvetes era muito colorida; Mar era de um azul quase tão bonito quanto o de seus olhos; Pessoas Especiais fora recoberta com fotografias e Esperança foi pintada de verde: a cor favorita da garota.

Lembranças é sempre a fase mais demorada por ser a que exige mais da pequena menina. Ali dentro estão as histórias de todos os piores dias de sua vida. Ela seleciona dois deles e lê, aos sussurros, percebendo que daquela vez (como em todas as vezes) ela não se considerava capaz de reagir ao problema. E, bem, ela sempre reagia. Do outro lado estão cuidadosamente organizados os depoimentos dos melhores dias de sua vida e ela também lê dois, para que isso a ajude a lembrar que nem tudo é tristeza como tendemos a acreditar ao passarmos por momentos angustiantes.

Não há como evitar a vontade de abrir a caixa Mar. É bonito demais lá dentro. Dezenas de saquinhos cheios de conchinhas que ela catou em todas as praias que foi estão enfileirados e rotulados com pequenos pedaços de papéis brancos. Ela tem ali dentro da caixa objetos que podem ter viajado por países e até continentes, carregados pela correnteza do mar. E ela deixa todos esses mares que guarda com tanto carinho e cuidado levarem para longe dela os pensamentos e acontecimentos que a fizeram sofrer.

A próxima é a de Pessoas Especiais, onde ela guarda as cartinhas, os presentes ou qualquer outra coisa que a marcou quando ela estava com essas pessoas que a fizeram bem. Ela tem filmes, CDs, canetas e até cartões de restaurantes. Assim, ela sabe que não está sozinha, que nunca estará.

Sorvete é sempre a quarta etapa porque quando a garota está com problemas e consegue superá-los, os Gelatos são sempre a melhor forma de selar um acordo de paz com seus sentimentos. Há tantos guardanapos e embalagens de todas essas sobremesas deliciosas enfiadas na caixa que a boca da garota se enche de água.

A última é Esperança, algo que já começa a surgir dentro dela, ainda em um verde pálido, mas que logo estará tão brilhante e vivo quanto uma esmeralda. Naquela caixa, ela guarda o seu futuro: todo ele, partes dele, prováveis futuros e improváveis também, que, ainda assim, podem ser realizados. Há um amontoado de cartões postais dos lugares mais lindos do mundo, alguns enviados por amigos que sabem que ela coleciona e outros comprados por ela mesma em lojas na internet. Há também reportagens de revistas e jornais, miniaturas de pontos turísticos importantes das grandes cidades, mapas, um pequeno globo e uma lista de cidades pequeninas que ela tem toda a certeza de que vai conhecer.

Depois de ver tantas coisas lindas, a garota está revigorada. E, colocando dentro da caixa de Lembranças o pequeno texto que escreveu quando ainda estava chorando em seu travesseiro e empurrando-as todas de volta para a escuridão de "Debaixo da Cama" (o lugar mais secreto de uma pessoa), não resta nada a fazer a não ser aumentar sua coleção de embalagens de sorvete.


Crônica por:
Larice Carvalho
(www.coracaoflutuante.blogspot.com.br)

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8 Bilhetes

  1. Gostei bastante dessa crônica; linda e original.

    M&N | Desbrava(dores) de livros - Participe do nosso top comentarista de setembro

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  2. Oiee ^^
    Que crônica linda! Terminei de ler e sem querer acabei olhando debaixo da minha cama...haha' não tinha nenhuma caixa de Esperança ou Mar por lá *-* acho que vou criar uma caixa de sentimentos para mim :)
    MilkMilks
    http://shakedepalavras.blogspot.com.br

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  3. Oi, tem tag no blog pra você, venha conferir!
    http://estantedorefugio.blogspot.com.br/2014/09/tag-12-objetos-que-quero-ter-antes-de.html

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  4. Larice, que ótima crônica! Adorei a sua ideia e me identifiquei bastante, porque também guardo algumas bugigangas, mas não tem bem organizadas como você colocou. Quando você apresentou "as caixas" fiquei imaginando o que cada uma delas significaria e que lindoo *-* Realmente, pequenas coisas podem nos animar e dar esperança em momentos difíceis!
    Parabéns e obrigada por nos prestigiar com esse texto inspirador e maravilhoso <3
    Debora.
    Beijão!
    http://vanille-vie.blogspot.com.br/

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  5. Adorei a abrir o cantinho da Tici e me deparar esta crônica maravilhosa, parabéns Larice e obrigada por compartilhar isso conosco!

    Beijos Joi Cardoso
    Estante Diagonal

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  6. Ao passar pela net encontrei seu blog, estive a ver e ler alguma postagens é um bom blog, daqueles que gostamos de visitar, e ficar mais um pouco. Tenho um blog, Peregrino E servo, se desejar fazer uma visita. Ficarei radiante se desejar fazer parte dos meus amigos virtuais, saiba que sempre retribuo seguido também o seu blog. Minhas saudações. António Batalha.

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  7. Sensacional. Muito bem escrito e de tamanha criatividade. Me encantou!

    http://www.umpenochaobasta.com/

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