[Resenha] A Casa de Avis

3.4.14


Primeiro volume da trilogia "Calicute", escrito pelo brasileiro Marcelo Mússuri, com
 376 páginas e publicado pela Novo Século

"Que juízo, amigo? O juízo nada mais é que o freio dos homens!"



Portugal, 1483/1488: Após ser obrigado a assistir a execução em praça pública de seu pai, o menino Jaime é mandado para o estaleiro da cidade de Lagos, separado de sua mãe e de sua antiga vida de fidalgo. No meio do caminho, porém, ele conhece dois homens a quem logo se afeiçoa e que lhe garantem uma viagem até o estaleiro um pouco mais digna do que aquela que Jaime estava tendo antes. Os homens são Dias (Bartolomeu Dias) e Diogo, dois irmãos navegadores que amam os mistérios do mar e suas aventuras mais do que qualquer outra coisa. Mas o destino acaba separando os dois do pequeno Jaime quando o menino é deixado no estaleiro para começar sua extenuante rotina de trabalho. Entretanto, alguns anos depois, esse mesmo destino logo volta a unir os três, após uma peste matar a tripulação de Dias e ele ter de recorrer aos ratos carpinteiros dos estaleiros, incluindo Jaime, para compor sua nova jornada rumo ao desconhecido e ao imprevisível.

" Calma, velho, eles não são mendigos. São ratos!  disse Diogo se divertindo.  E quem conhece melhor o dia a dia das embarcações que os ratos?  completou com sarcasmo infantil." [pág. 122]



A Casa de Avis é o primeiro volume da trilogia Calicute, que explora com maestria e muita pesquisa o período das Grandes Navegações e o descobrimento das terras americanas pelos determinados navegadores portugueses. O livro é dividido em dez partes, sendo a primeira dela uma narrativa de como o pequeno Jaime conheceu Dias e Diogo. E depois, até a parte quatro, vemos uma volta histórica pela formação das dinastias de Portugal. Essas duas partes (II, III) da volta ao passado têm uma grande relevância para a história, mas devem ser lidas com calma e paciência, para que você não se perca em meio a vários nomes parecidos e sucessões.

Passadas essas duas partes, a narrativa volta a ganhar impulso, centrando em Jaime, Dias e Diogo e em suas aventuras perigosas e excruciantes nos mares. Mas é desde o prólogo que o autor Marcelo Mússuri mostra para que veio, e isso fica bem explícito na sua narrativa. Esqueça o heroísmo que você aprendeu nos livros de História e imagine-se numa sala de aula na qual o professor pode te contar o que você não podia ouvir quando tinha 11 anos. Com uma narrativa simples, mas extremamente rica em detalhes, o autor constrói um retrato muito verossímil do que foram as Grandes Navegações. Personagens desprezíveis, traições, palavrões e sangue (muito sangue) vão saltar das páginas para te mostrar um período da História de um jeito que você provavelmente nunca viu antes.  



"... Diogo ficou lado a lado com o capitão ainda atônito, e num giro simples da espada cortou a orelha direita do oponente, levando junto uma fina camada da lateral do rosto. O capitão (...) caiu de joelhos, postando as duas mãos nas laterais da cabeça, tentando estancar o sangue que escorria fartamente. O ferimento ardia como brasa, e seus olhos se encheram de lágrimas carregadas de frustração e desespero. Diogo então disse, secamente: 'Agora você poderá escutar melhor os avisos silenciosos que a vida lhe der.'" [pág. 25]

Não vou negar, por diversas vezes fiquei chocada com o que lia; não conseguia acreditar que os navegadores podiam viver de uma maneira tão brusca e precária. Também quis dar uns bons tapas em outras personagens mesquinhas e vis, especialmente aquelas das ordens religiosas, e não pude deixar de ficar arrasada pela condição das mulheres naquela época, sempre vistas como objetos. Mas nem tudo é um retrato duro e cruel dos tempos passados; há também personagens que mesmo com toda a loucura e perigo ao redor conseguem manter a determinação, o caráter e o altruísmo. E esse é o lado apaixonante da história.

Além disso, A Casa de Avis foi para mim um livro bastante sensorial. Pude sentir o calor do fogo de vilas em chamas ou ficar com a boca seca enquanto os homens morriam de sede parados à própria sorte no mar. No fim das contas, achei um livro extremamente corajoso, forte e muito bem pesquisado e que eu recomendaria para quem é curioso, não tem medo da verdade e sobrevive facilmente a cenas sangrentas ou nojentas. Também não posso deixar de citar que estou bastante curiosa para saber que tipo de homem o Jaime vai ser nas continuações, depois de tudo que ele passou neste primeiro volume. 

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6 Bilhetes

  1. Eu AMEI a sua resenha <3 Fiquei morrendo de vontade de ler esse livro, sério mesmo. Nunca li um livro nesse estilo, mas eu com certeza daria uma chance pra ele, parece ser incrível! Beijos!

    www.belleaventuriere.blogspot.com
    www.youtube.com/booitsbia

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    1. Oba, que legal!! Leia, sim! É até bom para refletir um pouco! ^^
      Beijos, Beatriz! Obrigada pela visita!

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  2. Oi amiga, tudo bom? *--*
    Primeiramente, as fotos ficaram lindas! Você tem muito talento, adorei todas, você combinou super bem os acessórios e deixou o livro mais lindo ainda!
    Tinha esquecido o quão trágica é essa história, meu coração se apertou de novo só de lembrar na execução do pai na frente do menino, mas felizmente ele conhece pessoas maravilhosas, o que me fez respirar normalmente ♥
    Gostei muito de saber, que o autor nos possibilitou saber a visão de cada personagem, gosto muito disso, criamos umas personalidade melhor para cada um deles.
    Somos duas, quando envolve religião e acaba dificultando a vida das personagens, mas acho que esse tema, quando descrevem a vida dos escravos que viviam em navios, sempre vai chocar as pessoas, sempre me choca, já li muitos livros e li muitas histórias que mostravam como era e sempre morro de vontade de chorar, porque ninguém deveria ser submetido a tais momentos e acontecimentos. Da pra dizer que é praticamente uma época infeliz, mas pela sua resenha [que está maravilhosa, como sempre ] da pra sentir que o livro é um pouco pesado, ainda mais por se tratar de uma história de época, e ainda escrita por um homem, aposto que muitos momentos de chocaram. Quero sua resenha sobre a continuação <3

    Beijos linda, to com saudades!
    Percepções Blog

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    1. Como fazer comentários lindos como a Fernanda? Pesquisar... hahaha Mas gente, como pode ser tão fofa? *-* MUITO OBRIGADA! Pois é, foi uma época bastante infeliz, o livro realmente te transporta para lá, então você se choca mesmo! rs

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  3. Tenho que dizer que essas fotos encheram meus olhos <3.
    Sério, que coisa LINDA! O livro não não tenho vontade de ler, não faz meu estilo de leitura. Sem contar que estou em péssimos momentos para história trágicas =/. Mas gostei muito da resenha!

    memorias-de-leitura.blogspot.com

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    1. Aw, obrigada, Inês! <3 Quem sabe mais daqui para frente você não esteja num melhor momento para ler o livro, né? *-*

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