Até as histórias nunca escritas

1.1.14

Por Valentin Rekunenko

À primeira vista parecia uma catedral gótica, mas o letreiro perto da entrada arqueada dizia: "Bibliophiliarium: até as histórias nunca escritas". Uma biblioteca, talvez?, pensou o menino e a curiosidade o impulsionou a entrar. Ele atravessou a entrada, chegou a um balcão em passos silenciosos e observou a jovem figura da bibliotecária, que remexia em papéis envelhecidos com um sorriso à la Mona Lisa que nunca parecia lhe deixar o rosto. O menino pigarreou para indicar sua presença. 

— Bem-vindo! — disse ela após uma rápida avaliação do visitante. — Em que posso ajudá-lo?

Ele tinha olhos inquietos que tentavam assimilar cada pequeno pedaço da gigantesca biblioteca. Parecia impressionado, assustado e contrariado, como quem luta para decifrar um enigma ou entender um paradoxo.

— Onde estão os livros? — finalmente perguntou. 

A bibliotecária demonstrou ligeira afetação. Ajeitou os cabelos negros que lhe caíam nos olhos e voltou-se para os infindáveis corredores repletos de estantes vazias.

— Você não os vê?

O menino negou com um balanço de cabeça, tímido. Então a bibliotecária deixou sua posição atrás do balcão, pousou uma mão gentilmente no ombro do visitante e inclinou a cabeça para cima. Do alto teto da biblioteca pendiam gaiolas de variadas formas e tamanhos. Muitas. Formavam um mar que encobria toda a abóbada. Algumas rangiam sinistramente, e um bater de asas era sempre presente, mesmo que nenhuma ave pudesse ser vista.

— Você deve ter muitos pássaros  comentou o menino, que também tinha olhado para cima. 

O sorriso da bibliotecária se alargou, mas ela negou com a cabeça, dizendo:

— Pássaros odeiam gaiolas.

— Então o que...?

— O que são livros, pequeno?  perguntou a jovem de repente, interrompendo-o.

— Histórias? — arriscou ele. 

— E o que são histórias?

Silêncio. A essa pergunta o menino não tinha uma resposta pronta. A bibliotecária começou a caminhar em direção aos corredores e fez um movimento para que o visitante a seguisse.

— Sentimentos. Sonhos. Esperanças  começou ela.  Histórias são tudo isso e muito mais. Por trás de cada imagem, objeto ou canção há uma história. Até pessoas são feitas de histórias. — A bibliotecária fez uma pausa antes de continuar. — Histórias machucam, ensinam, transformam. São como o ar. Não podem ser vistas, tocadas ou saboreadas. Mas estão em todos os cantos, à espreita, invadindo corpos para enchê-los de vida. Ninguém vive sem histórias.

A bibliotecária faz uma nova pausa. Girou nos calcanhares e fitou o pequeno visitante com os olhos cheios de expectativa.

— Já consegue ver os livros?  perguntou.

O menino piscou, saindo de um rápido transe provocado pelas palavras da jovem. Ele observou as estantes com cautela, desejando desesperadamente que livros as preenchessem para que ele não decepcionasse a expectativa da bibliotecária. Mas não havia livro ali. Nenhum. Havia apenas... Ei, espera aí! O menino se aproximou de uma prateleira, observando-a minuciosamente.

— Portas? — perguntou.  São portas?

A bibliotecária assentiu.

— E para onde elas dão?

— Houve uma época que eu sabia de cor para onde cada uma delas dava. Já não sei mais. Surgem novas o tempo todo. Mas pode escolher uma e descobrir.
O menino sorriu. Já não parecia mais assustado ou contrariado. Passou a percorrer as estantes com uma ânsia infantil, procurando pela porta em miniatura que mais lhe chamasse a atenção. Alguns minutos depois já tinha a sua preferida. Com um assobio de aprovação, a bibliotecária puxou a portinha, como se retirasse um livro da prateleira e a portinha escorregou para o chão, projetando-se e aumentando de tamanho.


— Histórias são como aventuras também... Sabe por quê?

O menino olhou da porta projetada para a bibliotecária. Sentia-se como um aluno aplicado que tinha feito a lição de casa, pois ele sabia a resposta. 

— Porque precisam ser vividas!

— E compartilhadas  a bibliotecária completou.

De repente, ela tinha nas mãos uma das gaiolas do teto e a estendeu para o menino. Dentro da gaiola, como pássaros agitados, letras dançavam. Faziam um barulho muito similar a um bater de asas. E eram tantas que formavam um alegre e extenso redemoinho. O menino pegou a gaiola, sorriu para a bibliotecária e atravessou a porta, sumindo dentro dela. 

A jovem voltou ao balcão, cantarolando. Durante as horas que se seguiram, nenhum outro visitante apareceu e isso a deixou preocupada, mas não desanimada. Então, ela ouviu o barulho de uma porta batendo e soube que o menino estava finalmente de volta. Ele trazia numa mão a gaiola vazia; e na outra, um livro de capa vermelha. Depositou os dois objetos em cima do balcão. Estava cansado, mas satisfeito.

— Então, como foi?  a bibliotecária perguntou, folheando rapidamente o livro escrito com as letras da gaiola.

— Já teve que lutar contra um dragão?

— Tempos atrás, sim — respondeu ela, nostálgica. — Os marinhos são os mais ferozes.

Duas coisas passaram pela cabeça do menino. Primeiro ele quis saber mais sobre aquela bibliotecária do sorriso enigmático, que tinha um quê de heroína de tragédia grega ou de princesa amaldiçoada, ele não sabia ao certo. Mas esse pensamento foi logo suprimido por outro. Dragões marinhos?! Como se lesse os seus pensamentos, a bibliotecária disse:

— Quem sabe fica para uma continuação? — e piscou para ele ao mesmo tempo que lhe entregava o livro de capa vermelha e um envelope azul pequeno. — Dentro do envelope está a sua carteirinha daqui. Tenho um pressentimento de que um dia vai voltar. E o livro... peço que dê para alguém que goste ou que o coloque entre os livros de outra biblioteca. Compartilhar, lembra?

O menino concordou. Pegou o livro e o envelope e se despediu cordialmente. Não queria ir embora daquele santuário, mas a bibliotecária tinha dito que ele voltaria. Ela dissera que era um pressentimento, mas soara como uma afirmação. E ele também sabia que voltaria. Voltarei amanhã, decidiu assim que deixou a incomum biblioteca para trás, já abrindo o envelope para conferir sua nova carteirinha. Estava surpreso por não ter havido necessidade de usar uma daquelas horripilantes fotos 3x4 que sua mãe o obrigava a tirar todo santo ano. A carteirinha era feita de um papel grosso e resistente e continha apenas o nome completo dele e, embaixo, a expressão Contador de Histórias

O menino não tinha a menor ideia de como a bibliotecária pudesse saber o seu nome. Ele olhou para trás, como se esperasse encontrar a jovem misteriosa na entrada arqueada, acenando para ele, convidando-o a voltar e nunca mais sair.

Mas a biblioteca tinha desaparecido.

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18 Bilhetes

  1. Inspirador amiga, eu tenho certeza que você conseguiria fazer qualquer um apreciar a leitura! Você é incrível, te adorooo!

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    1. Onde eu clico para curtir esse comentário mil vezes? <3 Muito obrigada, Ella!

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  2. Amei muito esse conto! Sério mesmo, é fantástico! Adorei! Meus parabéns à autora!

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    1. Muito obrigada pelos comentários positivos, Juliana! Fico muito feliz! :D

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  3. Parabéns pela linda história do conto . Adorei !!

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  4. Adoro contos! Sempre que tenho tempo leio alguns :D Conheci o blog hoje e essa foi a primeira postagem que eu vim ler e tinha como eu ficar mais impressionada? O conto foi fantástico! Fico me perguntando quem será essa misteriosa bibliotecária...Achei incrível como a narrativa me envolveu desde o início. Espero que tenha uma continuação :) Adorei!

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    1. Muito obrigada, Bianca! *-* Fico muito feliz que você tenha gostado; o conto tem uma continuação, sim, só que não é uma continuação linear :x Aqui: http://www.bibliophiliarium.com/2014/02/conto-o-labirinto.html
      Beijos!

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  5. Nossa! Perfeito, perfeito, perfeito. Fazia muito tempo que eu não lia um conto assim. Me impressionou de verdade, além de não ter absolutamente nada de clichê. Adorei! Espero ter mais uns mil desses para eu ler. Parabéns mesmo!!! ♥

    http://listadasnuvens.blogspot.com/

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    1. Nhaaaaaw! *-* Posso emoldurar o seu comentário? Muito obrigada mesmo, de coração! Fico nas nuvens em saber que você gostou! <3 xx

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  6. Que conto interessante. Adoro contos que envolvem livros e bibliotecas. Esse foi bem interessante.
    O final foi bem saboroso.

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    1. Muito obrigada, Sonia! Bibliotecas são mágicas, não é? Não tem como não amar!

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  7. Como eu não sabia que você escreve contos? Vou comentar mesmo com quase um ano de atraso. Você é muito boa. Devia escrever mais. Gostei do seu estilo meio fantástico, mas não totalmente, usando o irreal mais como metáfora. As imagens que você propõe ficam bem ricas, tangíveis e, ao mesmo tempo, sutis, com uma certa leveza. Bom trabalho, agora vou ler o outro. Espero que você poste mais desses e continue praticando.
    Uma sugestão de leitura que vendo pelo seu estilo de escrita é possível que você goste e vá te ajudar a se desenvolver é Jorge Luis Borges. Até hoje, não conheço um escritor de fantasia melhor que ele.

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    1. \o/ \o/ \o/ \o/
      Muito obrigada, Raphael! Adoro trabalhar com metáforas, espero me aperfeiçoar nelas sempre que der! Sua dica já está mais do que anotada! E espero que curta o segundo conto também!

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